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Não Podemos Ler Roustaing?

Li parte dos livros de Roustaing. Do que li gostei, mas por não ter lido de forma completa, não tenho opinião formada sobre sua mensagem. Mas no momento o que mais me intriga em relação a Roustaing, é que estão procurando impedir aos espíritas o direito de conhecê-lo. Antes de comentar este fato, permita-me o leitor que eventualmente seja totalmente leigo em Roustaing, informar-lhe o que pesquisei sobre este espírita da época de Kardec.

Para que as pesquisas abaixo tenham o necessário contraponto, sugiro ao leitor ver, pela internet, comentários contra Roustaing no Blog oprimadodekardec.blogspot.com.br

Vejamos quem foi Roustaing: O francês Jean-Baptiste Roustaing foi espírita da primeira geração. Contemporâneo de Kardec, tornou-se espírita estudando as obras de Kardec e mantendo correspondência com o próprio.

Assim como Kardec teve por missão codificar as obras básicas, Roustaing também deu a sua contribuição ao Espiritismo. Coube a ele a missão de organizar, através de mensagens dos espíritos, um conjunto de livros denominados “Os Quatro Evangelhos”, que enfoca o lado religioso do Espiritismo. O conteúdo desses livros compreende comentários (dos espíritos, repito) sobre os textos dos quatro evangelistas. Portanto, são livros mediúnicos.

Sei muito pouco sobre Roustaing. Talvez, caro leitor, você questione: Por que se envolver então com o polêmico tema Roustaing?
Minha resposta: Entusiasmei-me em conhecê-lo quando soube que grandes oradores espíritas da atualidade têm nos “Os Quatro Evangelhos” importante fonte de pesquisa e estudo.

Fiquei também intrigado ao saber, de fontes fidedignas, que estes grandes e admirados oradores espíritas que lêem e estudam Roustaing, se vêem quase que obrigados a esconder tal fato. Pois, se assim o fizessem, seriam proibidos de proferir palestras em várias Instituições Espíritas!!! Todo este mistério levou a interessar-me e a pesquisar a vida de Roustaing. Com este objetivo, li dois livros que contam sua vida de espírita, mas ainda não li seus livros.

Soube que o seu livro foi editado pela FEB – Federação Espírita Brasileira. Soube ainda que há tempos existem dois grupos dentro da FEB que têm opiniões diametralmente opostas sobre a importância d’Os Quatro Evangelhos para o Espiritismo. Um grupo o coloca num importante patamar; outro o despreza. Ambos os grupos sabem que em nenhum momento Roustaing se viu como um ser mais importante do que Kardec para o movimento espírita. O que é um bom sinal. Aliás, Roustaing via Kardec como “o mestre”.
Esta rivalidade dentro da FEB fez com que a obra de Roustaing não tivesse a divulgação ou a exposição que os demais livros espíritas têm.

Antes de qualquer pré-julgamento do leitor, esclareço que valorizo a organização e o trabalho da FEB, pois, não obstante todos os percalços do caminho, geralmente à frente dessa honrada instituição estiveram e estão homens sérios que querem o bem de nossa Doutrina. Obviamente, como ocorre com a maioria das instituições, em sua trajetória esses líderes do passado e do presente acertaram muito e erraram muito. O que é próprio de quem muito faz.

Agora retorno ao tema inicial deste texto: estão procurando impedir os espíritas de conhecer Roustaing. A seguir explico o porquê desta minha conclusão.

Pelos motivos acima expostos interessei-me em ler e estudar Os Quatro Evangelhos. Como resido em São Paulo-SP, procurei-o nas principais livrarias espíritas desta capital. Não o encontrei. Não o encontrei nem mesmo na livraria da FEESP - Federação Espírita do Estado de São Paulo. E nesta citada livraria tive uma infeliz surpresa: O Os Quatro Evangelhos não está presente tão somente nas bancas da livraria, esta obra também não está presente no catálogo de livros da instituição!

Todos nós sabemos que uma coisa é faltar livros nas estantes; outra bem diferente é o livro não constar da lista do catálogo da livraria!

Será que está havendo censura prévia no movimento espírita? Será que as Instituições Espíritas representativas estão querendo nos dizer que livros podemos, ou não, ler?

Depois de procurar e não encontrar o citado livro, amigos informaram-me que (utilizando-me da expressão de um deles) “deram um chá de sumiço em Roustaing”. E me explicaram qual é um dos “fortes motivos” para esta ocorrência: Roustaing diz no seu livro que Jesus, quando na Terra, tinha corpo fluídico. Eu, que prefiro preocupar-me mais com a mensagem de Jesus do que circunstâncias outras, pergunto-me: E daí? Será que este erro, ou este acerto, pode fazer com que nos impeçam de ler uma obra que grandes espíritas reforçam sua importância e qualidade?

Será que podemos deixar de lado o que sempre aprendemos em nossa doutrina: Examinai tudo, retende o que é bom...
Por que não deixar para nós, leitores, a decisão que nos aprouver?

No consagrado livro “Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, editado pela FEB, psicografia de Chico Xavier, o espírito Humberto de Campos reforça a importância de Roustaing para o Espiritismo. Escreveu o espírito Humberto de Campos: “(...) Segundo os planos de trabalho do mundo invisível o grande missionário (Allan Kardec), no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares de sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de Jean-Baptiste Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a estrada científica e de Camile Flammarion, que abriria a cortina dos mundos, desenhando as maravilhas das paisagens celestes, cooperando assim na codificação kardequiana no Velho Mundo e dilatando-a com os necessários complementos.”

Se assim é, como diz o espírito Humberto de Campos, por que as instituições espíritas aceitam e valorizam as contribuições de Leon Denis, Gabriel Delanne e Camile Flammarion, mas colocam restrições justamente naquele que teve como foco o que mais precisamos para educar nossos sentimentos, que é a fé?

Kardec nos ensinou que o verdadeiro espírita é um Livre Pensador. Óbvio que com esta denominação, o mestre Kardec quis deixar para o futuro a mensagem de que não cabe às instituições espíritas ditar regras de conduta. E ponto final.

Mas continuemos...
Kardec leu o Os Quatro Evangelhos e, na Revista Espírita de junho de 1.866, fez o seguinte comentário: “Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com a ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada pelo ‘O Livros dos Espíritos’ e ‘O Livro dos Médiuns”.

Com seu espírito crítico e racional, Kardec reforça a sintonia do conteúdo do livro com as obras da codificação. Em parte do seu texto, Kardec faz críticas em alguns pontos do livro mencionado. Por exemplo, Kardec critica o caso do corpo fluídico de Jesus, bem como a forma da elaboração do livro. Mas sem desmerecer a importância da obra, Kardec reforça: “Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, em nada diminuem a importância da obra que, ao lado de coisas duvidosas, em nosso ponto de vista, encerra outras incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada pelos Espíritas Sérios”.

Percebeu, caro leitor, que Kardec disse que Os Quatro Evangelhos traz informações “incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada pelos Espíritas Sérios”. Por que então determinadas instituições espíritas estão estimulando estes espíritas sérios consultarem este livro às escondidas para, sensatamente, evitar o “caça as bruxas”?

Meus amigos, devemos em todas as áreas, e principalmente na área espírita que militamos, evitar críticas baseadas somente em evidências. Pois existem evidências que o tempo comprova não serem verdadeiras. Nossas críticas para serem válidas, precisam ser sustentadas no tripé:

“Fatos”;
Devem “visar o bem comum”;
E precisam ser de “caráter construtivo”.

A crítica que ora faço às instituições citadas, é baseada neste tripé. Isto é, é baseada em:

a) Fatos
A crítica que faço não tem por base “evidências”. Pois é fato de que no catalogo da livraria da FEESP - Federação Espírita do Estado de São Paulo não consta o citado livro de Roustaing; bem como é fato de que a FEB - Federação Espírita Brasileira cria impedimentos para que o citado livro seja conhecido pelos espíritas.

b) Visa o bem comum
Minha crítica é um incentivo ao conhecimento. Pois a proibição, ou quase proibição de uma obra, além de cercear a liberdade de opção, prejudica a tão necessária análise comparativa tão utilizada por Kardec (quando da elaboração das obras básicas). Pois, se lermos Roustaing, teremos como comparar sua mensagem com o conhecimento que o Espiritismo nos proporcionou.
c) Caráter construtivo

A pergunta que precisa ser respondida é: por que desconhecermos uma obra em que o próprio Kardec ressalta que traz informações “incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada pelos Espíritas Sérios”?

A respeitável médium Ivone A. Pereira, logo nas primeiras páginas do seu livro Devassando o Invisível (Editora FEB), diz: “(...) se é dever de qualquer cidadão respeitar opiniões alheias, ao espírita, com muito maior razão, assistirá o dever de consideração à opinião do próximo, ainda quanto antagônica ao seu modo de pensar.” Em outras palavras, esta notável médium nos orienta e nos alerta sobre a importância da fraternidade entre nós espíritas. Que surjam as críticas construtivas, pois que este era também o interesse de Kardec, mas que de forma conjunta à critica, esteja o nosso respeito às essas duas instituições que são para o Brasil – e até para o mundo – importante base da divulgação espírita. Vê-se na FEB e na FEESP a presença de incansáveis trabalhadores, que visam o bem do próximo. Vê-se, nestas instituições, a presença de pessoas que dedicam suas vidas a esta causa maravilhosa que é o Espiritismo. Vê-se, nestas instituições, trabalho profícuo carregado de amor e de desinteresse pessoal. Não obstante as eventuais críticas que estas instituições recebem (o que é normal e próprio em entidades representativas), a grande questão é: Será que o Espiritismo teria conseguido chegar onde chegou sem a forte contribuição da FEB e de suas representantes estaduais? Certo, de que há muito, muito e muito por fazer. Mas as bases fortes que existem, devemo-las em grande parte a estas importantes instituições.

Um adendo: Eu disse logo acima: “onde (o Espiritismo) chegou”. Esta afirmação pode gerar o seguinte e natural questionamento: “Mas, o Espiritismo com tão poucos adeptos, já chegou a um bom lugar no panorama mundial das religiões?” Não. Sabemos que não. No entanto, comparando a “idade” do Espiritismo com as “idades” do Catolicismo e do Protestantismo, o caminho que percorremos é altamente significativo. Mas há muito por fazer ainda.

Mas, voltando ao nosso tema, faço aqui um apelo às livrarias espíritas, principalmente as dos órgãos representativos estaduais e federal: não nos impeçam de comprarmos Os Quatro Evangelhos. Deixe-nos conhecer e estudar Roustaing para que possamos tirar nossas próprias conclusões. Deixe-nos sermos “Espíritas-Livres Pensadores”, como preconizou Kardec.

Caro leitor, conforme está claro em toda a extensão deste texto, meu objetivo não é colocar-me contra ou a favor do conteúdo do livro Os Quatro Evangelhos. Pois, como poderia posicionar-me em relação a algo que não conheço?

Posiciono-me sim, sobre o direito que temos de conhecer um livro que Kardec (repito pela terceira vez), ao mesmo tempo em que criticou parcialmente o seu conteúdo, mencionou que a obra de Roustaing “(...) traz informações incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada pelos Espíritas Sérios”.

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