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Aprendendo com os protestantes norte-americanos

Há vários anos ministro seminários espíritas em diversas regiões do país. De poucos anos para cá percebo um fato extremamente marcante: as instituições espíritas estão vivenciando, ou procurando vivenciar, um favorável processo de mudança. Em todos os níveis.

Este produtivo processo está presente desde a Casa Máter, Federação Espírita Brasileira, às demais entidades federativas estaduais, quanto às instituições representativas regionais, os Centros Espíritas e as entidades espíritas especializadas de âmbito nacional. Vê-se com muita freqüência que, na ocorrência de debates intelectuais entre espíritas, agora se procura inserir a fraternidade. Estamos descobrindo que a fraternidade está acima dos princípios religiosos, o que em outras palavras significa: criarmos conflitos por questões religiosas é não entendermos o significado da religiosidade. Estamos descobrindo que Jesus prefere ver-nos fraternos, sem uma religião específica, do que religiosos, mas sem fraternidade.

Acredito que um dos pontos fundamentais desta bem vinda mudança em nosso meio são as atitudes da atual presidência e diretoria da FEB, que têm o caráter desenvolvimentista e são adeptos de que, seguindo Kardec, haja liberdade de ação em cada Centro ou Instituição Espírita.

Aliás acredito que a atual diretoria da FEB percebeu que a demanda por mudanças surgiu da base. Isto é, a demanda surgiu a partir da insatisfação dos freqüentadores dos Centros Espíritas. E felizmente percebe-se, pelas atitudes tomadas, que a FEB se atualiza em termos de estilo de liderança. O estilo antigo, de instituição responsável por gerar regras e procedimentos, atualiza-se para o novo modelo de liderança, a de apoiadora de novas idéias e projetos que, preferencialmente, venham dos próprios Centros Espíritas. Não é mais “façam isto”, mas, sim, “façam o que julgarem ser melhor para o Centro Espírita, tomando o especial cuidado de manter os princípios doutrinários”.

Descobre-se, finalmente, que as instituições espíritas não necessitam de tutores, mas, sim, pedem apoio e união. Descobre-se também que as instituições representativas não são o fundamento do movimento espírita, mas, sim, os Centros Espíritas é que são determinantes na formação do homem de bem. Perde a FEB por esse novo estilo de liderança? Muito pelo contrário, ganha muito. E pela atitude moderna, sobe num honroso patamar, pois o verdadeiro líder é aquele que serve. E isto a FEB está descobrindo. Descobre-se finalmente que o novo estilo de liderança não é mais daquele líder que vai à frente, mas, sim daquele que vai atrás, apoiando e incentivando o espírito de equipe.

O que se vê hoje, reforço, é que o discurso sobre fraternidade está finalmente tendendo a tornar-se prática e vivência. Mas, não nos iludamos, ainda há muito por fazer. Existem segmentos paralisados, ricos no discurso e pobres na prática. Percebe-se que estamos simplesmente no alvorecer das atitudes fraternas, pois, elas ainda não são, em grande parte, fato consolidado. Mas, a beleza deste momento é que o processo de mudança teve início!

Um dos objetivos deste artigo, além de refletirmos sobre este especial momento pelo qual passamos, é também o de fazer um “balanço” entre nossas atitudes de espíritas e as atitudes de outras religiões, que em pontos fundamentais, estão sendo mais atuantes do que nós. Portanto a questão é: neste momento de mudanças que já estão ocorrendo em nosso meio, por que não exercitarmos a humildade e aprendermos com as outras religiões no que estão fazendo de bom e de correto?

Por sermos adeptos de uma Doutrina abrangente (imagine, o Espiritismo reúne em seus fundamentos a filosofia, a ciência, a religião!!!), repito, por sermos adeptos de uma Doutrina abrangente, muitos de nós nos acostumamos a valorizar o “prédio”, sem construirmos o “alicerce”. Ficamos numa agradável zona de conforto (agradável, até certo tempo).

Valorizamos a beleza do “prédio” (o Espiritismo); admiramos sua arquitetura bem elaborada, encostamo-nos em suas fortes paredes, mas nem sempre adotamos os procedimentos ou não utilizamo-nos das ferramentas que facilitam o aflorar de nossa essência divina, que é o objetivo máximo do Espiritismo. Em outras palavras, é o seu “alicerce”. Reforça este parecer, Allan Kardec, nO Livros dos Médiuns, capítulo XXVI, item 292, questão 22: “Não olvideis que o objetivo essencial, exclusivo do Espiritismo, é vosso adiantamento”.

A verdade é que, em relação ao Espiritismo, muitas vezes agimos como crianças numa festa, nos lambuzamos com o bolo. Mas não nos alimentamos direito.

Creio que aprender com outras religiões, no que estão fazendo de correto em relação ao “alicerce”, é um salutar e necessário procedimento. E este é o propósito principal deste artigo.

Bob Buford, adepto da religião protestante, é um dos mais importantes empresários dos Estados Unidos. Por circunstâncias da vida, num dado momento passou a direção de sua empresa a profissionais do mercado, e tomou um caminho que lhe fazia mais sentido: o caminho da espiritualização. Nesse meio tempo escreveu o livro A Arte de Virar o Jogo no Segundo Tempo da Vida, Editora Mundo Cristão. Nesse livro ele narra a sua trajetória.

Toda a mensagem do livro tem por base uma metáfora inteligente, simples e prática. Ele diz que nossa vida pode ser comparada a um jogo de futebol: tem o primeiro tempo, o intervalo e o segundo tempo. O primeiro tempo é quando temos como foco o sucesso; o intervalo é quando passamos a refletir mais profundamente sobre o que estamos fazendo de nossa vida; o segundo tempo é quando substituímos o sucesso (do primeiro tempo) pelo significado.

Explica o autor que não necessariamente o segundo tempo se faz presente numa idade mais avançada, tanto é que ele próprio escolheu entrar no segundo tempo quando tinha 35 anos de idade.

Importante: o autor, pela sua excelente condição financeira, teve e tem a condição de dedicar-se quase que integralmente a causas religiosas. No entanto, ele explica no livro o óbvio: para bem atuarmos no segundo tempo não precisamos abandonar o nosso trabalho, aliás, nossa atividade profissional pode ser um dos mais importantes palcos da nossa atuação.

Para aprendermos com o autor, adepto do protestantismo (repito), transcrevo a seguir parte do capítulo 16 do referido livro, que – pelo seu conteúdo – é leitura recomendável (basta dizer que a apresentação do livro é de Peter Drucker). Veremos como nos Estados Unidos algumas religiões estão adotando modernos treinamentos para a liderança religiosa e para o voluntariado, que podem nos levar a motivação para construirmos em nosso movimento espírita estruturas educacionais mais condizentes com a grandeza do Espiritismo. Não que já não estejamos caminhando nesta direção, mas, com as atitudes que iremos ler a seguir, é bem provável que cheguemos à conclusão de que - em relação a ao fato de ofertar treinamentos aos espíritas - muitos de nós não estamos sabendo bem aproveitar da riqueza espiritual que o Espiritismo nos proporciona. Mas, ainda está em tempo!

Palavras de Bob Buford:

“O nosso Senhor nos ensinou a sermos como crianças (despreocupadas), a evitarmos as preocupações excessivas (evitar o controle por parte de demandas e posses) e não deixar que sejamos controlados por muitos mestres. E na carta que Paulo escreveu à igreja de Roma, o apóstolo explica a importância de controlar a vida interior para ter uma vida cheia de satisfação: ‘Os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz’. (Romanos 8:5, 6).

A ironia é que a Igreja se tornou um desses mestres que fazem com que muitos dos que estão no primeiro tempo se sintam desesperadamente escravizados. A alegria que deveria resultar de servir aos outros em nome de Cristo está ausente, porque a maior parte daquilo que fazemos em prol da igreja é feito por obrigação. E isso acontece porque no primeiro tempo nós ainda não descobrimos quem somos, que é que realmente gostamos de fazer e como até as tarefas mais desagradáveis podem ser experiências libertadoras e gratificantes quando se desprendem da essência do nosso ser. Para a maioria das pessoas, o trabalho na igreja não é um sorvete com cobertura de chocolate, e sim os brócolis e espinafre que mamãe as obrigava a comer quando eram crianças.

Quando tiver descoberto a missão da vida, você estará numa posição muito melhor para retomar o controle sobre seus esforços de boa vontade no ministério da fé. Ao invés de se alastrar relutantemente até mais um ‘final de semana de testemunho’, por exemplo, terá a liberdade de preferir deixar que a luz da sua fé brilhe naturalmente enquanto você joga bridge toda noite de segunda-feira com os colegas de trabalho. Assim, terá retomado o controle de maneira a juntar o seu desejo de servir a Deus, a sua paixão por um jogo de baralho e a sua demanda de desfrutar uma atividade de lazer com pessoas afins.

É alentador ver como algumas igrejas estão se tornando adeptas a combinarem a paixão com o talento. Robert Bellah, co-autor do livro de sucesso Habits of the heart (Hábitos do coração), caracteriza esta capacidade como uma função para ‘instituições de mediação’. Muitas igrejas estão criando posições de ‘diretores de recursos de voluntariado’ ou estabelecendo ‘equipes de ligação’ para ajudar as pessoas a descobrirem como aplicar o melhor de si à tarefa de fortalecer o ministério da fé através da igreja. Por exemplo, aqui em Dallas, a igreja presbiteriana de Park City lançou mão recentemente do que eles chamam de Programa de Ligação, que já criou mais de 2500 oportunidades de serviços distintos.

A igreja comunitária de Willow Creek, na região metropolitana de Chigaco, desenvolveu um programa chamado Network [rede] (hoje usado por muitas igrejas em todo o país), para ajudar as pessoas a enxergarem a sua configuração individual, visando colocá-las em tarefas adequadas de trabalho voluntário.

A igreja comunitária de Saddleback Valley, em Mission Vielo, Califórnia, ajuda as pessoas a encontrarem sua SHAPE [perfil] (iniciais inglesas das palavras descritas a seguir): Dons espirituais (‘Spiritual gifts’); Coração, paixões (‘Heart, passions’); Habilidades (‘Abilities’); Personalidade (‘Personality’); Experiência, know-how (‘Experience, know how’)

Para que os cristãos que estão no segundo tempo consigam reais avanços em termos de concretizarem as suas missões de vida, muitas igrejas mais deverão adotar esta abordagem para envolver pessoas. O meu ministério de fé, Leadership Network, tem uma unidade de pessoas que trabalham para criar a Rede de Treinamento em Liderança, um programa que realiza treinamentos de cinco dias para diretores de recursos de voluntariados em igrejas”.

Caro leitor, pelas palavras de Bob Buford, que transcrevi, fica claro que o movimento protestante nos Estados Unidos está sabendo bem enfatizar o treinamento dos seus líderes e dos freqüentadores de seus templos. Por que não aprendermos com eles quaisquer que sejam as nossas crenças?

Por que não criarmos em nossas comunidades espíritas treinamentos contínuos de liderança? Por que não criarmos Centros de Projetos de Voluntariado? E trazendo estas reflexões para nosso campo íntimo, por que, como Bob Buford, não acreditarmos que viver religiosamente é adotar atitudes construtivas também fora do templo religioso, por exemplo, num descontraído e saudável encontro de lazer com amigos?

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