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A venda das indulgências pela igreja ainda existe?

Álvaro Augusto Vargas

A decisão da igreja em vender indulgências aos “pecadores” (século XIII-XVI), livrando-os das faltas cometidas e prometendo o Céu eterno, provocou a reforma liderada por Martin Lutero, que se insurgiu contra esta ação condenável da igreja católica. Enviado como um missionário do bem, aquele que foi Paulo, o apóstolo dos gentios (As Marcas do Cristo, Hermínio C. Miranda) conseguiu protagonizar a reorganização e revitalização do cristianismo na Europa, que seria a base para mais tarde o apoio à revelação do Espiritismo, como de fato ocorreu. Realmente, mesmo para uma sociedade ainda limitada no campo da religiosidade, a venda de indulgências foi um flagrante desrespeito a inteligência e bom senso humanos. Só uma igreja totalmente transviada dos valores morais do Cristo poderia ter arquitetado uma ação tão nefasta.

Mas embora Lutero tenha o grande mérito de ter traduzido para o idioma alemão a bíblia, tornando-a popular e criando uma igreja mais próxima do Cristianismo primitivo, pelas condições de sua época ele não poderia avançar mais do que conseguiu realizar. Outros missionários viriam mais tarde e dariam continuidade ao trabalho de cristianização do planeta. Entretanto, realmente foi eliminada a chaga da venda das indulgências iniciada no século XIII, ou ela ainda existe hoje de forma mais “velada”?

Quando um padre no confessionário perdoa um “pecador” tem dois aspectos a serem considerados: (1) O indivíduo se liberta de um “clichê” mental negativo e prossegue em ações positivas. Neste caso, o perdão foi salutar apenas no aspecto psicológico. (2) O indivíduo mesmo obtendo do padre o perdão de seus pecados, recalcitra no mal, banalizando este perdão, que foi usando apenas como forma de aplacar a consciência culposa. Mas, em qualquer das duas situações, não esta sendo informando corretamente ao crente às implicações que existem sobre o mal cometido. Ignorar o mal praticado e julgar-se absolvido não elimina os efeitos que serão gerados pelas atitudes insensatas que foram praticadas. Na verdade só superamos o mal ocasionado a outrem pelas três fases distintas de ações positivas: remorso (necessário, até a plena consciência do mal praticado), expiação (vivência em situação análoga à vítima de modo a sentir que errou e eliminar o remorso) e finalmente o ressarcimento à vítima. Portanto o simples perdão não nos exime do mal praticado.

Nas igrejas reformadas, embora não exista o “confessionário”, a pregação insiste em que apenas a fé salva (basta crer que será salvo). Muito fácil, se fosse realmente desta forma que poderíamos nos eximir das maldades praticadas. Mas na verdade é um contra senso, pois mesmo na bíblia esta explícita que não é assim, pois Jesus orienta que a fé sem obras é morta (Meus irmãos, que interessa se alguém disser que tem fé em Deus, e não fizer prova disso através de obras? - Tiago, 2:14-26). Com relação as nossas ações e seus efeitos, Jesus em várias oportunidades ensinou sobre as consequências de nossos atos (“... porque todos os que lançarem mão da espada a espada morrerão” – Mateus, 26:52). Em outras palavras, a indulgência ainda existe, mas de forma velada, buscando fazer prosélitos necessários para a existência material das igrejas.

O Espiritismo por ser a fé raciocinada, adaptada ao homem mais intelectualizado na época atual, apresenta respostas lógicas sobre a nossa existência e destino, que fazem sentido para uma época de intensa atividade mental e de informações. Ao explicar que Deus perdoa, mas nos exige o cumprimento integral das nossas obrigações e ressarcimento de todos os males praticados, nos traz o consolo do perdão, mas nos induz a reforma íntima e vivência da caridade, única forma de encontrarmos a felicidade que todos nos buscamos. A Doutrina Espírita é o Consolador prometido por Jesus e atende as expectativas do homem em todas as classes socioeconômicas. Mas estaria livre da indulgência? Provavelmente que não, dependendo do nível moral do dirigente em questão. Felizmente quando ocorre este sempre circunscrito a poucos centros espíritas que não buscaram primar pela pureza doutrinária, esquecendo-se que antes de tudo uma casa espírita é uma escola de almas. Geralmente são dirigentes fascinados pela necessidade de uma grande audiência e que prometem prodígios e curas milagrosas. O tempo e a educação irão eliminar estes desvios de conduta.

Tenhamos plena convicção de que eventualmente toda a humanidade irá conhecer os postulados Espíritas, e mesmo vivenciando outras correntes religiosas e filosóficas, irão se adaptar ao vento renovador desta doutrina que traz a realidade sobre a vida após a vida e as motivações esclarecedoras para a necessária transformação moral de cada um de nós. O nosso planeta é uma escola de desenvolvimento intelectual e moral, e sempre evoluímos tanto na erraticidade (mundo espiritual) como aqui, quando encarnados na terra. A própria necessidade de desenvolver a nossa espiritualidade nos levara a uma aproximação maior juntos destas correntes filosóficas e religiosas, de modo que o conhecimento espírita se tornará uma pratica comum, sem mais a necessidade da “venda de indulgências” por qualquer corrente religiosa.