A mulher - uma visão espírita

Na busca de se entender melhor a existência humana, a compreensão da mulher e da condição feminina torna-se relevante.

Conduta dominante em diversos povos e sociedades, com remanescentes persistindo até a época atual, em algumas culturas mais que em outras, o machismo continua tentando suprimir liberdades duramente conquistadas em favor das mulheres. Mesmo com os inegáveis avanços no sentido da emancipação feminina, ainda há um longo caminho a percorrer.

Sob uma perspectiva espiritualista e evolutiva, apesar de importantes conquistas, ainda existe uma evidente objetificação da mulher – reflexo da condição moral da humanidade –, o que distorce a natureza da relação entre ela e o homem, a qual poderia e deveria ser mais respeitosa e saudável. A superexposição do corpo feminino, a busca excessiva por procedimentos físicos e estéticos, ao lado de estereótipos de beleza estabelecidos pela mídia, induzem a mulher, assim como o homem, a práticas nem sempre saudáveis para preservar a aparência segundo padrões estabelecidos pelos meios de comunicação. Isso alimenta uma indústria certamente lucrativa, mas nem sempre ética ou interessada nas reais necessidades femininas, dentre elas o imprescindível desenvolvimento espiritual e a aceitação de cada fase da existência, inclusive a velhice, como parte de um processo natural e, desde que bem vivenciada, capaz de trazer valiosas experiências evolutivas.

Se a mulher tem exercido novos papéis na sociedade, aproxima-se o momento em que ela se emancipará de uma forma mais ampla, libertando-se também da imposição de padrões de beleza, de condicionamentos externos, de apelos consumistas e de práticas abusivas que põem em risco sua integridade física e psíquica. De acordo com instruções de diversas religiões e filosofias espiritualistas, inclusive do Espiritismo, a mulher é, direta ou indiretamente, responsável pelo modo como é tratada, de acordo com suas atitudes e conduta, atuais ou passadas, segundo a lei de causa e efeito.

Diante de crescentes conquistas femininas, não se pode negligenciar a importância da maternidade. Pela possibilidade da gestação, a mulher traz intrínseco o dom da vida, e pela capacidade de amar seus filhos, biológicos ou não, pode contribuir de modo especial na formação do caráter deles, o que se reflete positivamente na sociedade. Independentemente de quaisquer outras atividades que venha a exercer, desde que decida ser mãe, cremos que essa deva ser sua prioridade, em especial nas fases iniciais do desenvolvimento infantil, pois as impressões que deixar nos filhos os acompanharão por toda a vida. A literatura espírita é rica de exemplos da importância da interação mãe-filho para o saudável desenvolvimento humano, e da sublime missão materna no encaminhamento para o bem daqueles que aceita na condição de filhos. Esclarece ainda os vínculos espirituais existentes entre pais e filhos, muitas vezes desde existências passadas. Nos casos em que a maternidade não for possível ou não for a escolha da mulher, é óbvio que ela pode se realizar de incontáveis outros modos, desde que siga a orientação interior, no cumprimento da sua missão evolutiva.

Os papéis sociais desempenhados pela mulher vêm se ampliando, como cidadã e ser humano cada vez mais consciente e atuante nas dimensões afetiva, intelectual, social e espiritual. Esse processo certamente envolve também os homens, que precisam alterar o modo como veem as mulheres, contribuindo para que as relações humanas, como um todo, sejam mais harmoniosas.

A Doutrina Espírita, ao esclarecer que o espírito reencarna, ora na condição masculina, ora na feminina, traz nova e mais ampla visão sobre as questões de gênero, contribuindo decisivamente na erradicação dos preconceitos e da intolerância ainda remanescentes na sociedade.

É importante relembrarmos, conforme está em O Livro dos Espíritos, que o determinante para que um espírito reencarne como homem ou mulher é a natureza das tarefas que deva desempenhar, bem como as experiências que deva vivenciar com vistas à sua evolução espiritual. Diante dessa realidade, não faz o menor sentido qualquer tipo de discriminação à mulher, pois sabe-se que ela é espírito imortal, momentaneamente experimentando a reencarnação na polaridade sexual feminina. Além disso, quem hoje vivencia a masculinidade já experimentou, e experimentará em futuras reencarnações, a condição feminina.

O resgate da dignidade feminina ocorreu muito antes do advento do Espiritismo. Numa época e situação social de desrespeito e desvalorização da mulher, a qual era considerada objeto, Jesus elevou a figura feminina à sua devida dignidade. Seu relacionamento com as mulheres foi permeado de ternura, respeito e pureza, muito distantes da realidade social em que o Mestre vivia, demonstrando a elevação do Cristo. Numa sociedade machista e violenta, intolerante e hipócrita, Jesus salvou a mulher adúltera, ao lhe permitir trilhar novos caminhos sem condená-la, revelando a sublimidade do seu amor.

Ao que nos parece, o mais importante, independentemente de se estar encarnado como homem ou mulher, é buscar-se o sentido existencial mais profundo e o cumprimento das tarefas evolutivas que cabem a cada um. O corpo físico é uma veste, e a polaridade sexual, um estágio na jornada evolutiva.

Sabe-se, por instruções mediúnicas confiáveis, que após o conturbado período de transição que vivemos no mundo, quando a Terra atingir a condição de planeta de regeneração, haverá uma renovação de valores e, consequentemente, condutas humanas, conferindo à mulher o respeito, a liberdade e a dignidade que lhe são direitos fundamentais. Podemos, com vistas a essa realidade futura, buscar desde agora o aperfeiçoamento interior, bem como dos relacionamentos interpessoais.

Respeitar-se e respeitar, compreender-se e compreender, parecem ser atitudes acertadas quanto às questões do relacionamento entre homens e mulheres, e, como contributo a esse processo, a Doutrina Espírita fornece rico material para estudo, reflexão e vivência, a fim de que se alcance novo patamar nos relacionamentos humanos.

Parece-nos importante que todos – homens e mulheres – reconheçam sua realidade essencial, espiritual, a partir da qual podem ter um novo olhar sobre a vida, o ser humano e as relações com o semelhante. Sob essa perspectiva ampliada, cada um pode compreender e respeitar as singularidades e potencialidades humanas, favorecendo a cooperação entre homens e mulheres na edificação de uma sociedade mais justa, livre e fraterna.

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