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Ranger os Dentes

Ranger de Dentes - Richard SimonettiDurante palestra no Centro Espírita, em remota cidadezinha, o expositor notou que o pessoal ligado à instituição não tinha dentes, todos banguelos.

Certamente algum problema relacionado com a má qualidade de vida, envolvendo água, alimentação, escovação, falta de flúor, hereditariedade…

Ao final, em conversa com um dos dirigentes, perguntou:

– Desculpe a curiosidade, mas por que o pessoal aqui não tem dentes?
– Extraímos todos.
– Houve problemas?
– Foi para evitá-los no Além.
– Quem orientou?
– Nosso guia. Diz respeito ao “choro e ranger de dentes” a que se refere Jesus. Informou que não haverá choro se evitarmos o ranger dos dentes, indo sem eles.

***

Bem, amigo leitor, parafraseando um ditado italiano, podemos dizer que certamente non e vero, não é verdade, mas sei bene trovato, é uma boa história, a ilustrar um dos problemas mais freqüentes nos Centros Espíritas pouco afeitos ao estudo: a irracional submissão aos “guias”.

Não raro, o dito-cujo é o próprio médium, a exercitar, inconscientemente, sua vocação para liderar, ou um Espírito galhofeiro que se apresenta como tal, aproveitando-se da credulidade das pessoas.

Ainda que estejamos diante de legítimo orientador, nem sempre este tem condições ideais para orientar.

Diz Allan Kardec, em Obras Póstumas, na segunda parte, ao falar de sua iniciação no intercâmbio com o Além:

Um dos primeiros resultados que colhi das minhas observações foi que os Espíritos, nada mais sendo do que as almas dos homens, não possuíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral; que o saber de que dispunham se circunscrevia ao grau que haviam alcançado, de adiantamento, e que a opinião deles só tinha o valor de uma opinião pessoal.

Reconhecida desde o princípio, esta verdade me preservou do grave escolho de crer na infalibilidade dos Espíritos e me impediu de formular teorias prematuras, tendo por base o que fora dito por um ou alguns deles.

Há duas importantes observações a respeito do assunto, em O Livro dos Médiuns, de dois mentores que orientavam Kardec:

  • Item 266, Espírito São Luís, ou Luís IX (1214-1270), rei de França, famoso por sua bondade e integridade, canonizado pela igreja católica em 1297: Qualquer que seja a confiança legítima que vos inspirem os Espíritos que presidem aos vossos trabalhos, uma recomendação há que nunca será demais repetir e que deveríeis ter presente sempre na vossa lembrança, quando vos entregais aos vossos estudos: é a de pesar e meditar, é a de submeter ao cadinho da razão mais severa todas as comunicações que receberdes; é a de não deixardes de pedir as explicações necessárias a formardes opinião segura, desde que um ponto vos pareça suspeito, duvidoso ou obscuro.
  • Item 230, Espírito Erasto, que foi discípulo de Paulo de Tarso: Na dúvida, abstém-te, diz um dos vossos velhos provérbios. Não admitais, portanto, senão o que seja, aos vossos olhos, de manifesta evidência. Desde que uma opinião nova venha a ser expendida, por pouco que vos pareça duvidosa, fazei-a passar pelo crisol da razão e da lógica e rejeitai desassombradamente o que a razão e o bom senso reprovarem. Vale mais repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.

Elementar, portanto, caro leitor, que nos habituemos a examinar cuidadosamente as orientações que venham da Espiritualidade, sem medo de perguntar e até de contestar as que pareçam fugir à coerência doutrinária.

Diga-se de passagem: os mentores legítimos exercitam infinita paciência. Não se aborrecem com nossas dúvidas.

***

Oportuno lembrar, nesse particular, que a natureza dos Espíritos que nos trazem notícias e orientações guarda correspondência com as intenções do grupo.

Se desejamos receber manifestações produtivas, orientemos a reunião para o estudo, insistindo na seriedade, no empenho do Bem, no ideal espírita… Seguramente atrairemos mentores espirituais em condições de ajudar.

Mas, se conforme ocorre com freqüência, estivermos voltados para os interesses imediatistas, alheios às realizações espirituais, certamente atrairemos orientadores sem orientação, capazes de sugerir aberrações como extrair os dentes na Terra para não rangê-los no Além.

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