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Até a última linha

Um dia, quando a sala se achava repleta de discípulos e curiosos, o zaddik Issac Lip tomou da palavra e narrou o seguinte:

– Naquele dia Adão chegou ao declinar da tarde. Intrigada com a estranha demora do esposo, Eva o interrogou, um tanto maliciosa e um tanto abespinhada: “Onde estiveste, querido, todo esse tempo? Por que demoraste tanto para chegar?” Com palavras reticentes, meio gaguejantes, desculpou-se Adão com motivos que, para um habitante do Éden, não pareciam dos mais aceitáveis. Eva não insistiu. Aceitou as evasivas fraquíssimas do esposo e deixou-o em paz. Adão, sem mais palavras, deitou-se, de bruços, sobre o tapete macio da relva e dormiu pesadamente. Eva, sentada a seu lado e nada conformada com a indiferença do companheiro, pôs-se a contar, em voz alta: “Um, dois, três, quatro, cinto, seis, sete, oito, nove…”

Neste ponto o velho zaddik fez ligeira pausa e interrogou, em tom malicioso, os ouvintes:

– Surge, agora, meus amigos, grave problema. Que estava a Mãe Eva contando, naquela tarde, enquanto Pai Adão dormia pesadamente sobre o chão aveludado do Paraíso?

Permaneceram todos em silêncio. O enigma parecia desafiar a imaginação dos mais cultos e brilhantes talmudistas. O orador insistiu, com um sorriso matreiro, sem mudar de tom.

– Vamos! Que estava a Mãe Eva contando?

Como seus interlocutores continuassem calados, explicou:

– A nossa Mãe Eva contava as costelas de Pai Adão, a fim de apurar se faltava alguma.

***

Tive o prazer de conhecer e ouvir, em duas oportunidades, em Bauru, na década de cinqüenta, num ciclo de conferências, o escritor que registrou essa anedota.

Trata-se do professor Júlio César de Melo e Souza.

Não sabe quem é, prezado leitor?

E se eu disser Malba Tahan?

Pois é! Ambos são a mesma pessoa.

Malba Tahan foi o codinome adotado para suas incursões nos domínios da literatura, encantando gerações que se sucedem, best seller permanente, com suas maravilhosas histórias.

É um extraordinário recurso didático, até para ensinar matemática, feita de números, que aparentemente não tem nada a ver com as referidas, feitas de palavras. Quem leu O Homem que Calculava, seu livro mais famoso, sabe do que estou falando.
Colégio lotado, ouvíamos Malba Tahan literalmente eletrizados. Tendo formação em artes cênicas, dava um toque especial às narrativas dramatizadas. Prendiam a atenção e aguçavam a imaginação.

Tanto tempo se passou e recordo várias delas, especialmente uma sobre as relações sentimentais, quando não dão certo.

Certa feita o Amor desejou atravessar caudaloso rio.

Procurou um barqueiro. Este se recusou a transportá-lo.

Um segundo exprimiu idêntica negativa.

O terceiro barqueiro consultado dispôs-se a atendê-lo.

Em meio à travessia, o Amor perguntou-lhe quem eram os dois colegas que não quiseram ajudá-lo a passar para a outra margem.

Ele explicou:

– O primeiro barqueiro é o sofrimento; o segundo, o desprezo.
– E quem é você?
– Sou o tempo.

Perfeito!

Se a experiência amorosa não dá certo, pode haver sofrimento, rancor, ressentimento, desprezo, mas só o tempo acalmará nossa inquietação.

Só o tempo faz passar o amor!

***

O grande mérito da história é favorecer a associação dos conceitos de quem fala com as rotinas existenciais dos que ouvem, fixando-os indelevelmente.

Didaticamente é perfeito.

Há algum tempo participei de um ciclo de palestras, em pequena localidade, no interior de Minas.

Terminada a reunião, conversando com uma senhora, ela afirmou:

– Lembro-me de sua primeira visita a nossa cidade.

– Está equivocada. Nunca estive aqui.

– Pois eu me recordo até da história que contou. O encontro redentor de um ex-prisioneiro das galés com santo padre.

Bingo! A senhora estava absolutamente certa.

É um episódio do livro Os Miseráveis, de Victor Hugo. Costumava apresentá-lo, no desdobramento de uma palestra.

Ela não guardara os detalhes, mas registrara o essencial, que estava na história.

***

Grande parte dos ensinamentos de Jesus, o Mestre por excelência, era transmitida na forma de parábolas, histórias com fundo moral.

O Filho Pródigo, O Bom Samaritano, O Semeador, A Ovelha Perdida, O Fariseu e o Publicano, são algumas das mais importantes.

Sustentaram, indelevelmente, sua doutrina, perpetuando-se na tradição oral, antes que fossem fixadas definitivamente pelos evangelistas.

Use e abuse das histórias, caro leitor.

Alegres, edificantes, evocativas, ilustrativas, esclarecedoras, emocionantes, são pedaços da vida que ligamos à nossa vida, buscando o melhor para nós…