Cadastre-se em nosso boletim semanal

Nome:
Email:
Cadastre-se e receba as atualizações do site

Filhos do Trovão

Entre a Judeia e a Galileia, na Palestina, havia a Samaria, compondo o cenário em que Jesus iniciaria a epopeia evangélica.
Os samaritanos, embora também judeus, não se bicavam com seus irmãos daquelas regiões, em virtude de problemas variados.
Dentre eles o fato de que a Samaria estivera por mais tempo sob domínio estrangeiro, sedimentando costumes não compatíveis com o judaísmo.

Eram irmãos de sangue separados por querelas.

Ocorre que a Samaria ficava entre a Galileia e a Judeia.

Sem passar por ela, viajantes em trânsito entre as duas regiões viam-se na contingência de longa volta se quisessem evitar o contato com seus moradores.

Jesus nunca alimentou essa preocupação.

Vezes inúmeras atravessou a Samaria.

Numa dessas viagens aconteceu o inesquecível encontro com a mulher samaritana, em que teceu grandiosos comentários a respeito da comunhão com Deus, despida de ritos e rezas, ofícios e oficiantes, destacando (João, 4:23):

Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.

Noutra oportunidade (Lucas, 9:51-56), em solo samaritano, acompanhado pelos discípulos, enviou mensageiros para buscarem pousada numa aldeia. Lamentavelmente, nenhum morador se dispôs a acolhê-los, em face da animosidade existente.

João e Tiago, chamados Boanerges, filhos do trovão, por seu caráter impetuoso, sugeriram a Jesus:

Senhor, queres que mandemos que desça o fogo do céu que os consuma, assim como fez Elias?

O que me parece incrível, leitor amigo, é a sugestão dos dois discípulos, algo tão espantoso que é risível!

O próprio Jesus, que como todo Espírito superior certamente era bem-humorado, há de ter achado graça nesse impulso juvenil dos dois discípulos.

Convivendo com o Mestre, ouvindo-o exaltar os valores da tolerância, do perdão, da misericórdia, da bondade, eis que ambos estavam bem mais perto de Elias, o rude profeta judeu, que cultivava o mau hábito de incinerar pessoas que o desagradavam, evocando o fogo divino.

A resposta de Jesus não poderia ser outra:

Vós não sabeis de que espírito sois, pois o filho do homem não veio para destruir os homens, mas para salvá-los.

***

O episódio evidencia a fragilidade humana.

Os ideais evangélicos ainda são meras ideias para nós.

Não desceram do cérebro para o coração.

Não se corporificaram na ação.

Frequentemente, se bem observarmos, verificaremos que nossas reações são de quem prefere evocar o fogo do Céu ao empenho de apagar o fogo na Terra.

Isso acontece porque há muito de Boanerges em nossas reações, dificultando o entendimento com o próximo.

E se você, leitor amigo, tem dúvidas a respeito, responda sinceramente.

Consegue evitar a irritação e as reações agressivas em situações como as abaixo?

O motorista que vem atrás buzina, impertinente, porque você demorou alguns segundos para movimentar seu carro no semáforo.

O profissional que contratou para determinado serviço mostra-se relapso e impontual.

O cônjuge, mal inspirado, faz críticas ferinas ao seu comportamento.

O companheiro de atividade religiosa contesta com indelicada veemência seu ponto de vista.

Alguém desastradamente pisa em seu calo.

O filho lhe diz que não aceita sua orientação porque você é um coroa superado.

O chefe critica, grosseiro, seu trabalho.

O subordinado produz reiterados erros na condução do serviço.

O cheque que lhe deram volta sem fundos.

Se sua resposta for afirmativa, provavelmente equivocaram-se as autoridades celestes quando o internaram neste reformatório de expiação e provas, porquanto jamais reagiria assim quem merece viver em mundos mais aprazíveis.

Rudyard Kipling (1865-1936), num poema famoso, discorre sobre as condições para que sejamos um homem com agá maiúsculo (refere-se ao gênero humano, gentil leitora).

Dentre elas está a capacidade de conservar o bom senso e a calma em todas as situações.

Direi eu que bem mais que um homem, se assim fizermos, seremos um cristão, vencida a inferioridade que nos impele a cogitar de torrar os que nos contrariam, atendendo ao filho do trovão que ainda mora em nós.

Curta e Compartilhe esse artigo no Facebook!