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Por André de Paiva Salum em 23/05/2016

Diversas escolas religiosas recomendam o jejum como exercício de purificação, e pode-se defini-lo como a privação parcial ou total de alimentos, durante certo tempo, com objetivos terapêuticos ou espirituais. Se certas impurezas se introduzem no corpo e provocam perturbações físicas, abster-se de alimento (por um curto período de tempo e sob orientação adequada) poderá auxiliar a eliminá-las. Ocorre que existem impurezas também nos outros planos, além do físico, as quais podem introduzir-se nos corpos sutis (ou períspirito), sob a forma de sentimentos e desejos grosseiros, de pensamentos e intenções negativos.

Embora haja informações espíritas, inclusive mediúnicas, relativas à alimentação, o jejum não faz parte das práticas espíritas, e o Espiritismo não traz recomendações específicas a esse respeito, detendo-se preferencialmente em assuntos relativos à transformação moral do ser humano. Mais do que a abstinência de alimentos, pede-se ao espírita a harmonia e a moderação em todas as atividades, inclusive no alimentar-se, evitando os excessos que, além de prejudiciais à saúde, indiretamente privam outros seres dos alimentos necessários. O equilíbrio, em qualquer circunstância, permite o adequado desempenho das tarefas evolutivas e o melhor cumprimento dos trabalhos que a alma se propôs a realizar durante a encarnação.

A privação de alimentos, desde que criteriosa, pode trazer benefícios ao corpo e à mente, ao poupar o organismo de excessos e consequentemente dos seus efeitos deletérios, permitindo maior liberdade para que se realizem as atividades da alma. Mas é o jejum emocional e mental que se reveste de mais ampla significação, pois privar-se de emoções perturbadoras, de sentimentos inferiores, bem como de pensamentos negativos e desejos egoístas, possibilita a purificação do ser em níveis mais profundos, e a liberação de energias para serem usadas com propósitos superiores. Para isso, é necessário não só que se deixe de alimentar pensamentos e sentimentos egoístas, agressivos, mas também que sejam substituídos por outros, mais puros e luminosos. Caso se privem esses núcleos psíquicos dos alimentos que eles procuram, acabarão por se enfraquecer e reduzir a sua influência sobre a vida humana.

Desse modo, o jejum pode ser considerado sob uma visão mais ampla, abrangendo principalmente os aspectos da mente, geralmente saturada de elementos tóxicos que se acumulam e perturbam as funções psíquicas. Jejuar, desse ponto de vista, consiste em se abster de alimentos emocionais não saudáveis, deixar de ingerir informações de conteúdo degradante ou potencialmente conflituosas, evitar pensamentos menos dignos, enfim, privar o psiquismo de tudo o que possa perturbá-lo ou contaminá-lo com energias destrutivas.

Sob tal perspectiva, o silêncio pode ser compreendido como um jejum de palavras, em que se abstém de falar desnecessariamente, evitando o desperdício de energias com críticas, conflitos e maledicência, resguardando-se na quietude interior, a qual pode ser excelente fonte de equilíbrio e harmonia. Geralmente falamos demais, indiscriminadamente, de coisas, pessoas e temas sobre os quais não temos conhecimento correto, ou sobre questões que não têm importância real, muitas vezes contribuindo para aumentar desajustes, sofrimentos e problemas. O jejum de palavras pode nos predispor à reflexão, meditação e ponderação antes de emitirmos opiniões sobre qualquer assunto, permitindo-nos, portanto, oferecer contribuição mais valiosa pela fala.

Durante o processo de autoconhecimento para a necessária transformação interior, ao constatarmos determinados vícios que temos cultivado, pode ser necessário um período de completo “jejum” em relação aos mesmos. É natural que, nessa fase, sintamos a sua falta, até que nos habituemos a viver sem eles, quando estaremos, então, descondicionados e, portanto, livres. Ao deixarmos de alimentar nossos aspectos inferiores e viciosos, enfraquecemos sua influência em nossa vida, ao mesmo tempo que permitimos a canalização das energias disso resultantes para finalidades evolutivas.

Quando o Mestre Jesus afirmou ser mais importante o que sai da boca do homem do que aquilo que entra por ela, deixou claro que os conteúdos procedentes do coração têm importância maior do que qualquer preceito exterior, como os relativos à alimentação. Procurando ampliar a compreensão desse ensino do Mestre, acreditamos que o jejum mais
importante seja a abstenção de tudo que possa contaminar, prejudicar ou perturbar o ambiente em que se vive. Em outra ocasião, quando os discípulos não conseguiram expulsar o demônio de uma pessoa, Jesus afirmou que aquela classe de demônios só poderia ser expulsa com jejum e oração. Possivelmente os discípulos não estavam suficientemente purificados para esse tipo de desobsessão, pois ainda precisariam deixar de alimentar aspectos inferiores de sua personalidade e se fortalecer espiritualmente.

Os seres mais conscientes da realidade espiritual demonstram, através de ensinos e exemplos, que não assimilam conteúdos negativos do ambiente em que vivem e que são criteriosos quanto aos estímulos psíquicos a que dão importância, abstendo-se de tudo que não seja digno de interesse superior. Eis uma sábia proposta de vida, em que os aspectos mais densos e desarmônicos da natureza humana sejam suplantados por outros mais sutis e luminosos, e na qual a privação de algo inferior tenha o significado de ganho evolutivo e libertação pela transmutação e sublimação, capazes de gerar frutos de vida mais plena.